Relatoria crítica mesa 1

 

Por Jéssica Andrade

Sobre a necessidade de se fazer este Encontro de publicadores e divulgação da pesquisa sobre o cenário da publicação independente na América Latina.

 

Interlocutores:

Tenda de Livros (São Paulo, Brasil)

Edições Aurora  (São Paulo, Brasil)

Zerocentos Publicações (São Paulo, Brasil)

 

 

A feira de publicadores ocorreu no dia dois de agosto de 2016, o dia depois do golpe. Para um conservador que passasse diante da porta e visse aproximadamente cinquenta pessoas sentadas na disposição de um círculo na Oficina Cultural Oswald de Andrade na rua Três Rios, bairro Bom Retiro, imaginaria instantaneamente que aquele seria um motim a favor da democracia, e ele provavelmente não estaria enganado.

A tentativa de reunir grupos de publicadores, sejam estes coletivos, duplas ou pessoas que atuam individualmente produzindo livros no cenário independente, nasceu da necessidade de estabelecer uma prosa mais aprofundada com esses pares na busca de criar uma roda de conversa para debater questões como: práticas de troca, engajamento de produções manuais, liberdade de edição, sustentabilidade e uma reflexão sobre o perfil do publicador no Brasil e na América do Sul. Outras questões como: feiras de publicações independentes, curadoria e seleção de participantes caíram na roda e geraram discussões acaloradas que nos levaram a embates difíceis: Publicação independente X Sistema.

 

Publico, logo existo.

Para um publicador, o primeiro louro desta empreitada é a liberdade de edição. Muitas vezes, a decisão de escolha de um original, de um projeto gráfico e editorial não está em suas mãos, e são definidas em reuniões burocráticas cujo objetivo é alcançar metas lucrativas ao fim do semestre. Tornar-se um publicador independente é dar vazão a projetos que no eixo comercial seriam contra-argumentados como inconcebíveis, talvez caros e intangíveis e sem gargalo para adentrar o mercado editorial, como se o mercado editorial fosse intransponível preconceituoso ou um grande casarão de uma porta só.

No encontro para publicadores, é possível encontrar pessoas de diversas áreas: arquitetos, editores, sociólogos, antropólogos, estudantes, ilustradores, artistas plásticos, designers, simpatizantes do livro, gente do movimento negro, feministas, acadêmicos e muitos outros que, por meio das feiras independentes, e não somente, foram incitados a publicar. Publicar o conteúdo que desejam, que acreditam, que julgam relevante na forma que lhes convém, com acabamentos e experimentações gráficas que exploram o livro e o reinventam com diferentes formatos e funcionalidades. As publicações são terceirizadas o menos possível, o que impera é a mão na massa e o faça você mesmo, seja por conta da verba reduzida, seja porque existe uma certa atmosfera revolucionária em parir, das próprias mãos, os projetos e criar obras limitadas de baixa tiragem, exclusivas e cem por cento autorais. A feira e outros eventos que, de certa forma, são destinados aos publicadores propõem uma dinâmica que muito se parece com as guildas do período medieval. Os mestres de ofícios são acessíveis e estão do outro lado da bancada, o estrelismo e a idealização de autores e designers que circulam na aristocracia das grandes livrarias e editoras se frustrarão quando se depararem com um cenário plano, horizontal e sem autógrafos.

A horizontalidade da feira e a acessibilidade com os produtores, que também são vendedores, editores, impressores, capistas e divulgadores do seu próprio trabalho, propiciam uma rede de trocas e conexões rica em conteúdo, críticas, compartilhamento de experiências e a formação identitária de um grupo que pratica a mesma ação e que enxerga a ato de publicar como uma ferramenta de expressão, seja na abordagem de temas literários, afetivos, poéticos ou políticos.

 

Sustentabilidade, sim ou não?

Uma das grandes discussões do encontro foi a sustentabilidade. A pesquisa realizada pelos organizadores a fim de mapear o perfil dos publicadores trazia a seguinte questão: Você sobrevive do seu trabalho? Uma ínfima porcentagem apontou que sim, mas a pergunta é: Até que ponto é vantajoso mercantilizar essa prática, essas relações ?

Tanto o movimento de publicações como as feiras surgiram como uma rota alternativa para sair do eixo comercial, uma fuga para não ficar refém das tendências, da tributação, do sistema, e o que me assola é pensar que mercantilizar este processo não seria como trilhar o mesmo caminho e cair no mesmo ponto que incitou a fuga? Muitos grupos de publicadores independentes são formados por amigos ou pessoas engajadas num mesmo propósito, que realizam suas obras e a publicam, não como fonte de renda primária, mas como uma atividade de identificação, uma vontade de fazer. A dinâmica de organização de atividades e funções se dá de forma muito orgânica entre os componentes, e como a maioria do processo é totalmente colaborativo, qual seria a política deste grupo para equalizar pagamentos, direitos autorais, dentre outras problemáticas ?

A partir do momento que um coletivo ou uma editora independente vira uma empresa e começa a ter uma demanda de contas e um fluxo financeiro, quais seriam os impactos na visão do grupo, nas suas escolhas editoriais e na sua organização? Não que esta conversão seja totalmente negativa, mas o compromisso de arcar com dívidas ou de cobrir gastos expõe e ameaça a liberdade de escolhas editoriais, gráficas e processuais. Por outro lado, os publicadores demandam tempo e trabalho para criar e realizar seus projetos, e o ressarcimento financeiro dessas atividades os possibilitariam empenhar mais tempo nessas funções. Para esta discussão, ainda há mais dúvidas que soluções.

Vamos falar sobre as Feiras

 

As feiras independentes não se limitam apenas à Tijuana, em São Paulo, existem várias e em diferentes estados do Brasil, como Pão de forma, no Rio de Janeiro, Baronesa, em Curitiba, e muitas outras. Um dos momentos mais acalorados do encontro foi quando os publicadores, principalmente aqueles que não conseguem passar pelo crivo de seleção das feiras, em questão à Tijuana, iniciam um debate de como é feito a curadoria dos participantes, pois muitos se questionam por que todo ano veem mais do mesmo. Segundo alguns participantes do encontro, há pouca rotatividade das editoras e o processo de seleção ou não de uma linha de trabalho é uma prática ainda oculta e que não dispõe de um retorno para o inscrito justificando o porquê de ele não ser selecionado naquele ano.

O cerne da questão é que a feira Tijuana ganhou uma proporção e uma popularização muito maior que o esperado no início do projeto e se tornou um espaço de grande visibilidade para o publicador independente, ganhando um status para o publicador equivalente ao da editora que consegue ter uma mesa de livros na entrada da Livraria Cultura, um espaço disputadíssimo. E cada vez mais o número de editoras, coletivos ou pessoas que estão publicando no cenário independente aumenta, e não só a Tijuana, outras feiras que ocorrem em São Paulo não conseguirão dar conta sempre de todos aqueles que desejam participar. Em contrapartida os publicadores não podem considerar ou comparar um evento como mais notório que outro, pois a questão não é divulgar no espaço que a mídia esteja dando ênfase, que seja melhor ou pior que outro, a questão é divulgar um trabalho autoral, democratizar o acesso, o valor de obras com conteúdo e qualidade que saem da linha habitual e superficial do mercado. Se a preocupação maior for o narcisismo de expor num local e num evento abordado pela mídia, a feira e os publicadores irão enveredar no mesmo caminho das grandes marcas na disputa por minutos de maior audiência no canal aberto. Existem outros caminhos, como também se pode criar novos caminhos.

Outro ponto importante é questionar o porquê da centralidade desses eventos, por que eles estão concentrados nas zonas centrais da cidade e não nas periféricas? A pesquisa apontou que o perfil dos editores é composto majoritariamente de brancos, e se pensarmos lá trás no Brasil Colônia e na instauração da impressa no Rio de Janeiro em 1808, com a vinda da família real, e pensarmos também que a gestão e a veiculação de informação em diversos meios de comunicação, seja de massa ou não, são ocupados por pessoas brancas, notamos que o pré-conceito e o ranço de um modelo europeu, infelizmente, ainda se faz presente em diversos segmentos, inclusive no editorial.

Realizar o Publicadores e deixar a mesa farta com debates, críticas, novas perspectivas, indagações e perturbações é sentir que a proposta serviu à sua função de pensar o cenário de publicações e a importância do encontro para o fortalecimento das ideias, dos posicionamentos e da não acomodação. O movimento de reflexão sobre qualquer prática deve ser contínuo, e sair com mais questionamentos que certezas é bom sinal.

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