Impressões do I Encontro de Publicadores

Por Marina Feldhues

A materialidade do livro me atrai. A vontade de tirar os textos do blog, as fotos do site e do HD do computador e dar um corpo físico, tátil me move em direção aos livros. Os livros permitem uma conversa mais íntima e um encontro mais duradouro com o outro, com o leitor. Bem diferente da efemeridade das exposições ou da virtualidade dos sites, o livro tem cheiro, tem cor, tem peso, tem toque, tem vida, muita vida.

Como aspirante a publicadora, amante de livros e pesquisadora, fui ao encontro com a intenção de ouvir, ouvir o que publicadores que já trouxeram ao mundo seus primeiros filhos, livros, estavam pensando sobre o ato de publicar, de fazer circular suas publicações, e o que pensam sobre o futuro das publicações independentes.

A reunião me trouxe muitas questões para pensar: produzir um livro por quê? O que tenho para comunicar? Para quem quero comunicar? E como fazer para que meu livro (se consegui responder as perguntas anteriores) chegue ao público que almejo? Comecei a fazer alguns desenhos mentais… Existe um ou mais autores (escritor, fotógrafo, artista, desenhista, etc) que tem algo a dizer para alguém. O livro é uma aproximação e uma troca com o outro. O livro tem que chegar até o outro. Tem que circular, tem que ser visto.

Liberdade. Ainda que com limites financeiros e/ou tecnológicos, ser um publicador independente, se autopublicar, longe das grandes editoras, me parece um terreno repleto de liberdade, onde se pode construir de acordo com as próprias regras ou em desacordo com elas, fora do eixo institucional do que deve ser publicado e como. Ser o curador de si mesmo, se conhecer e fazer o exercício de se por no lugar do outro, no lugar do leitor, que vai abrir o seu livro e, com suas experiências, criar diversas conexões.

O romantismo acaba quando a necessidade de pagar as contas começa, ou quando as dificuldades de alcançar o público aparecem, ou quando se percebe que o público ainda não existe e que é preciso formá-lo. No encontro, ao vermos os resultados da pesquisa, ficou clara a dificuldade de a publicação independente ser sustentável em si. A maioria dos publicadores tem outras fontes de renda, não sobrevivem dos resultados das vendas de seus livros. Publicam por amor e não por lucro, o que tem seu lado bom, não há que temer arriscar-se, experimentar. Outras duas questões, alcançar e formar o público, foram as que mais me chamaram a atenção no encontro. Não há o que publicar se não há quem queira ver. A formação de público é fundamental para a continuidade das publicações independentes. As feiras (outro termo presente em boa parte dos discursos) de publicações independentes têm desempenhado um papel central para esses publicadores como um lugar de encontro entre publicadores e entre estes e o público. Um lugar de troca em várias direções e um lugar de tornar visíveis as publicações produzidas. “As feiras são pontos de movimentações, catalisam ideias, são espaços de diálogo”, disse Raquel (A Bolha).

As feiras, contudo, são limitadas, ora fisicamente, ora curatorialmente, ora os dois. Nem todos os publicadores independentes estão presentes nas feiras. O debate foi grande em torno desse ponto. As feiras são centros de visibilidade. Estar numa feira é ter a oportunidade de tornar visível a produção, de tornar-se conhecido pelo público frequentador e pelos pares. Estar numa feira é, de certa forma, ser legitimado pelos pares, organizadores da feira e outros publicadores presentes. As feiras desempenham papéis políticos que, pelos processos curatoriais (quem entra e quem fica de fora da feira), se assemelham aos papéis institucionais do sistema de artes (quem vai expor e quem não vai expor na galeria).

Lembro da fala de Ana Luisa, de Tijuana, ao dizer que a Feira Tijuana é uma feira de livros de artista, como uma grande exposição, cujo processo curatorial é inerente. Já o pesquisador José de Souza Muniz Jr. trouxe para a reunião o caso da Argentina. A FLIA não é curatorial, pois o publicador chega, bota a barraca de livro e vende (não saberemos se é ou não legitimado como artista).

As feiras se situam, me parece, nessa mistura de ponto de movimento, de encontro, centro catalisador e ao mesmo tempo, centro legitimador ou circuito institucional. Penso que as feiras são necessárias, elas movimentam e catalisam a produção e ajudam a formar público, mas não devem ser únicas, até para não cair num “circuito institucional da publicação independente”, contraditório por si só. Ser independente é ter liberdade de produção ou fazer parte de um novo circuito institucional artístico que se coloca como centro do que sempre foi margem?

Talvez a resposta seja a rua.

Eu aprendi muito e considero que o encontro foi bastante frutífero, não por trazer soluções, mas por levantar questões, por possibilitar, num espaço democrático, que diferentes vozes pudessem falar, expor certezas e inquietações. Todos ali presentes, por mais distintas que fossem suas posições quanto às questões debatidas, têm em comum o amor pela publicação, a vontade de publicar e a consciência da união como caminho para um futuro com cada vez mais publicações independentes e mais público consumidor.

 

 

 

 

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